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Artigos Quinta-feira, 20 de Outubro de 2022, 15:55 - A | A

Quinta-feira, 20 de Outubro de 2022, 15h:55 - A | A

Rui Perdigão*

Oceanidade Zibrizante

por Rui Perdigão*

A respeito do provérbio de que não basta ser, de que é preciso também parecer, tenho sérias dúvidas sobre a necessidade de parecer, mas no caso do provérbio que diz que em terra de cego quem tem um olho é rei, considero devermos passar a dizer que em terra de cego quem diz que tem um olho é rei. Trata-se de um ajuste aos tempos de hoje, nos quais qualquer pessoa fala que tem um olho, sabendo que os outros, sendo cegos, não vão conseguir verificar se esse olho efetivamente existe.

Vivemos dias em que o real está a perde importância para um virtual de grandes e misteriosas sombras. 

Virtual é um adjetivo que se refere a algo capaz de criar um efeito sem, no entanto, o produzir concretamente. Um efeito que não sendo real, nem físico, está a trespassar as nossas vidas, a uma velocidade incrível, sem pedir licença, nem anuência.

Eu, particularmente, sinto esse efeito igual uma oceanidade zibrizante. Algo que vejo vir ligeiro no horizonte e que quando chega perto de mim faz meu corpo estremecer. Um efeito que revela a minha fragilidade e desperta em mim grande apreensão pela enorme capacidade que tem para assolar pessoas.

Sei que ver e sentir é algo individual, muito próprio de cada um, mas quando observo como o imaginário de George Orwell se concretizou com um celular e uma nuvem, e como a Matrix está sendo instalada através da implantação de processadores neuromórficos em humanos, acredito não ser o único com esse “Sentimento de si”, como estuda António Damásio. 

Consciência, emoção, sonho, opção, amor, é tudo ainda tão mal compreendido e estamos já disponíveis para prescindir de tudo isso a troco de poderosas ferramentas BioTec, capazes de vir a determinar o sentido das nossas vidas nas próximas primaveras.

Entendo que uma existência potencial, como a virtual, não pode ser equacionada só com base na previsão de quando irá adquirir determinada dimensão ou somente quando for oportuno anunciar ela como expoente máximo de uma globalização intelectual.

Certamente uma qualificação possível, mas deveras sinistra para algo que precisa ser bem pensado por todos nós antes que seja tarde demais. Por essa razão, para além da perca de pensamento que entendo estar a acontecer, considero que o momento exige da ciência esclarecimentos sobre para onde estamos a mandar ir os futuros da nossa espécie.

Independentemente do desconhecimento que afirmamos ter do futuro ou do grau de desinteresse que demonstramos por um debate público universal e transparente sobre o assunto, não me lembro de ter delegado a ninguém, o poder de incursão no que configura ser a fecundação do embrião para o Homo Digitális. 

Devidamente vacinado, sinto-me confortável lado a lado com os inúmeros seres, na árvore genealógica dos organismos vivos. Porém, não posso deixar de manifestar incomodo com a habilidade e o pernicioso apetite que desenvolvemos sobre o meio físico e humano que nos rodeia. Atualmente, alguns relatórios referem existirem ganhos de consciência para com a necessidade de se preservar o meio/ambiente, mas no que concerne ao humano volto a ter muitas dúvidas.

Por nascimento estamos ilibados de responsabilidades passadas e por comodidade ou preceitos religiosos renunciamos decidir sobre a nossa própria morte (sobre a dos outros, tudo bem), mas, por favor, não estamos obrigados a extrapolar para toda a vida esse triste resumo de estar no mundo. O direito e a arte são as mais sublimes evidências de que a odisseia humana vale a pena, e fazer parte da construção da vida talvez seja a expressão máxima de que estamos vivos. Caso assim seja, não nos podemos inibir de participar. O nosso legado é muitíssimo maior que nós. 

*Rui Perdigão – Administrador, geógrafo e presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso 

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