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Artigos Sexta-feira, 07 de Junho de 2024, 15:56 - A | A

Sexta-feira, 07 de Junho de 2024, 15h:56 - A | A

Eduardo Leite*

Da mordaça ao marketing: como somos manipulados na política

Por Eduardo Leite*

“Manhêêê, o que significa Capistrum?” “Sei lá, meu filho, deve ser mais uma arte de Nenéu!” Capistrum é uma expressão do latim e pode ser traduzida por “mordaça”. Em contexto político, dá sentido ao termo “voto de cabresto”, que se refere a um sistema de controle ou restrição, que, no caso brasileiro, os eleitores eram forçados a votar conforme as ordens do líder político ou patrono, uma prática comum durante o período do coronelismo.

Esta situação só teve fim (ou foi reduzida) após a Revolução de 1930, e mais precisamente em 1932, quando entra em vigor o primeiro Código Eleitoral do Brasil, que garante o voto secreto. Mas, em 2021, o Ministério Público, por meio do Núcleo de Ações de Competência Originária (NACO), e a Polícia Civil deflagaram uma operação com o nome de Capistrum que levou ao afastamento do prefeito de Cuiabá. Ele foi acusado de obrigar (cabresto) a contratação de indicados políticos para cargos temporários em sua gestão e também de desviar R$ 16 milhões dos cofres públicos.

Em 2024, o emedebista atingiu a impressionante marca de 20 operações policiais investigando sua gestão. O "recorde" foi alcançado na quarta-feira, 29 de maio de 2024, tornando-se o gestor com o maior número de investigações em quase oito anos à frente do executivo municipal da capital. Seus opositores, preocupados em "matá-lo" politicamente, estão empenhados em torná-lo inelegível sob a justificativa de promover a justiça. No entanto, surge a questão: todas essas operações já não seriam suficientes para afastar os eleitores? Por que alguém escolheria votar no recordista novamente? Seria necessário um cabresto?

No fundo, estamos querendo entender como realizamos nossas escolhas. Claro que, de imediato, sacamos do coldre a mais usada e pouco compreendida arma filosófica: o livre arbítrio! Esse dispositivo psíquico parece explicar tudo: explica o que compramos; o que vestimos; com quem casamos e em quem votamos. Mas seríamos mesmo livres para escolher? A filosofia há tempos lida com esse dilema, sem uma solução definitiva. Grande parte da população acredita que basta pensarmos bem, calcularmos, medirmos, em última instância, sermos racionais para realizarmos as melhores escolhas. No entanto, a questão é mais complexa do que parece.

O problema é que “o coração tem razões que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal). Mesmo que a Razão entre em jogo e constate que votar em pessoas com esse número de investigações nas costas seja imoral, portanto, antiético, contraproducente, irracional, ainda assim tem algo que reverte todo esse processo e até parece um “cabresto”: são as emoções!

Para neurociência, nossas escolhas são reflexos de processos neuroquímicos. Liberman e Long (2023) disseram que os eleitores não fazem escolhas políticas usando uma espécie de racionalidade objetiva, muito pelo contrário, em primeiro plano organizando as escolhas estão as emoções. Os módulos emocionais podem fazer as pessoas tomarem decisões sem quaisquer fundamentos científicos. É nesse plano que entra o marketing político.

Através do marketing, os políticos profissionais exploram as emoções mais primitivas que existem em nós: o medo, o desejo e a simpatia. Explorar o medo pode ser o mais eficaz de todos. Ficar tagarelando sobre os riscos de um candidato assumir a cadeira da prefeitura é tão eficaz quanto provar cientificamente que ele é imoral. Inclusive, as pesquisas dizem que o uso de drogas que aumentam a produção de serotonina (antidepressivos) também aumenta o medo de perder, o que levaria, certamente, a uma relativa resistência a opções políticas mais arriscadas. A escolha dos representantes políticos não se dará pela probabilidade matemática ou a viabilidade política de suas propostas, mas pelo tanto que ele demonstre desejar o mesmo que nós (identificação). E isso nos leva a outra emoção, a simpatia.

O marketing, que não é mau por natureza, aproveita daquilo que Rutger Bregman (2021) chamou de empatia focada. Em resumo, isso significa que nos emocionamos com histórias que refletem as nossas próprias dores e sofrimentos. Nos colocamos no lugar do outro e queremos ajudar. Aqui, não são a moral ou a ética coletiva que ditam as regras, mas sim as emoções! Ah, e nesse campo o marketing não perde. Não estamos completamente livres para escolher? Provavelmente não!

Portanto, nossas escolhas podem não ser tão livres quanto imaginamos. Elas são moldadas por uma complexa interação de fatores emocionais, neuroquímicos e sociais. O marketing político, aproveitando-se dessas emoções, pode direcionar nossas decisões de maneiras sutis e poderosas. Contudo, seja o cabresto do coronelismo do passado ou o marketing sofisticado do presente, ainda vale a pena seguir o conselho de Kant (1724–1804) e exercer nossa autonomia, questionar nossos desejos e tomar decisões bem informadas. Assim, da próxima vez que você se encontrar diante de uma escolha difícil, ou mesmo na hora do voto, lembre-se de que não vive só nessa aldeia chamada mundo.

*Eduardo Leite é doutor em História pela UFMT
@eduardoleite.prof

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