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Artigos Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2022, 20:55 - A | A

Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2022, 20h:55 - A | A

João Edisom*

A agonia da democracia

por João Edisom*

Ironicamente a Democracia é o único regime político existente que permite os antidemocratas acender ao poder para destrui-la. Falando em nome dela, da liberdade e usando suas ferramentas como armas de ataque.

No ano de 1947, na Inglaterra, na Câmara dos Comuns, Winston Churchill teria dito uma frase assim: a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as demais formas que têm sido experimentadas ao longo da história.

Como afirmou o filosofo Steven Levitski em seu livro Como morrem as democracias, “uma das grandes ironias de como as democracias morrem é que a própria defesa da democracia é muitas vezes usada como pretexto para a sua subversão”.

A ampliação do número de pessoas para ocupar poder termina por permitir acesso inclusive daqueles que não tem conhecimento suficiente e não possuem capacidade ou credenciais para ocupar cargos. O processo eletivo termina por conduzir ao poder pessoas ignorantes aos ditames do cargo e ai vai exercer de modo atabalhoado funções que necessitam de especialidades refinadas.

A ignorância enquanto poder político é uma substância abortiva que, quando não elimina de vez, causa deformações irreparáveis na democracia. Entenda ignorância aqui como alguém que não tem conhecimento, cultura, por falta de estudo, experiência ou prática para ocupar o cargo para o qual foi eleito ou posto por indicações de partidos ou grupos de pressão.

Sedentos de poder passam a sacar as armas do amedrontar, criar pânico, através de invencionices e mentiras. Pois sabem que a mentira é ferramenta poderosa nas mãos dos incompetentes na hora de governar. A necessidade de serem heróis ou salvadores da pátria faz com que os “Aspirantes a autocratas costumam usar crises econômicas, desastres naturais e, sobretudo, ameaças à segurança nacional e das pessoas, guerras, insurreições armadas ou ataques terroristas para justificar medidas antidemocráticas”, Steven Levitsky.

Do outro lado sabemos que na democracia não precisa saber para ocupar o poder e nem ter conhecimento de causa para fazer as escolhas (votar). Como afirma Steven Levitsky, “os cidadãos muitas vezes demoram a compreender que sua democracia está sendo desmantelada – mesmo que isso esteja acontecendo bem debaixo do seu nariz”.

Quando alguém é eleito ele ou ela não fica inteligente ou capaz só pelo fato de ter recebido votos. A este apenas é concebido o exercício de poder com status de autoridade e assim usar prerrogativas do cargo. Ao contrário, se este é um ignorante, ele vai potencializar as sandices para justificar cada ação, passará a usar de mentiras e assombros criando monstros e inimigos para cegar os que ainda acreditam em sua utilidade, seja para permanecer no poder ou para voltar a ele.

Com isso entendemos que a ignorância é um perigo para a democracia, uma vez que o exercício de qualquer poder exige “tamanho” para ocupá-lo, que é medido pelo tripé: conhecimento, responsabilidade e liturgia que cada função exige. A ausência de qualquer um destes requisitos faz o gestor da função gerar anomalias que muitas vezes levam séculos para ser superada, isso quando é superada. O jeitinho à brasileira é uma destas anomalias que remonta aos governos gerais ainda do Brasil colônia do século XVI e ainda vigente em boa parte da população.

Sabemos que “as democracias funcionam melhor e sobrevivem mais tempo onde as constituições são reforçadas por normas democráticas não escritas (...): a tolerância mútua, ou o entendimento de que partes concorrentes se aceitem umas às outras como rivais legítimas, e a contenção, ou a ideia de que os políticos devem ser comedidos ao fazerem uso de suas prerrogativas institucionais”, Steven Levitsk. Não somente no Brasil a democracia agoniza, porque a ignorância não tem fronteira!

*João Edisom é sociólogo e articulista político

 

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